quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A Flor e a náusea - Mal invisivel


Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cizenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobrefundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que triste são as coisas, consideradas em ênfase.
Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam pra casa.
Estão menos livres mas levam jornaise soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotadailude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.Suas pétalas não se abrem.Seu nome não está nos livros.É feia.
Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.É feia. Mas é uma flor.
Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.*Porque julho será o mês das flores.
Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Mal invisivel

Grande silêncio


Eu já me sinto tão anestesiado desta situação que não sei do que falar. Depois do que minha vida se tornou; Um espetáculo, uma aberração. Não sei mais do que falar: Da morte ou do amor? Tanto faz. É tudo quase a mesma coisa. Quando se encontra nesta situação amar ou morrer dá no mesmo. Não temos futuro, não temos mais vida.












terça-feira, 30 de junho de 2009

Fim de semestre



Para quando ir, partir, mansa despedida

Só os traços de uma pele morna reencontrada

Sonhos com lugares já visitados

Ilusionismo certo de nós e nada mais


Assim que puder escapo das feridas

ganho sentido mesmo sem o aço da vida secreta

E, permanentemente, desfaço algo que já não interessa a nenhuma fraqueza

O antitratado desta paisagem concreta


Com a conta no pescoço

amarro a sensação da fé serena

do colorido das pedras que se enroscam no meu peito farto
sempre querendo mais e mais inchaço

que de repente signifique alguma forma de ganho

artéria, matéria, colagem.


Para quando não souber mais palavras,

nenhuma segurança sequer

Ainda que frustre o silêncio habitado e inusitado da idéia

Livro santo dos meus próprios guerreiros

a circular na atmosfera clara e absoluta do meu pleno afeto.


Chovendo, chovendo barbaramente

com a flecha lançada ao sol

nesta justiça perene e contraditória dos opostos necessários

E o para sempre ficando pra mais tarde...terra...semente.

Tatiane C.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Algo além de uma forma geométrica?


Para Amós Heber


A pior coisa de se pensar em fazer uma pesquisa científica é deixar o orgulho de lado em nome da escolha. Cada vez que você encontra uma frase, uma foto, um argumento, dá vontade de fazer dez mestrados e mais uns tantos doutorados, porque não seria algo que vc "desencanaria" facilmente em sua trajetória, nem tampouco algo que não gerasse uma transformação.
A questão é que acredito que o profissional de artes ou, como diz a brincadeira e espero que seja "o ser humano profissional", necessita sempre estar em contato. Acho até engraçado nas jornadas de exposição de pesquisas, que cada um tenha descoberto que linha seguir e lute por ela, pelo menos a explore até um pseudo final de vida, academica ou não. Nestes meus 23 anos de teatro já mudei tantas vezes, com avaliações positivas e negativas, como pólos que não chegam a se desencontrar, gosto mais de pensar nos meus 29 por aí.
Cada processo, embora lide com certas lógicas da criação, é único e eu como ser sensível me enxergo passando por várias nuances diferentes dentro deles, quase sem defesa, apenas com registros singelos, principalmente quando me imagino como atriz, este ser que constrói sua carne a partir da mudança, que passa por processos diferenciados.


Não se trata de: ah, vai fazer um trabalho comercial então, porque não é bem essa a linha. A questão é, existiriam mais possibilidades, até mesmo encarando o erro, se os temas e conceitos fossem outros, se pudesse falar aqui aquilo que só encontrarei "orientação" no Japão, se não precisasse de tamanhos enquadramentos ou de tamanha elocubração pra dizer? Afinal, o teatro superou a comunicação enquadrada em sua essencialidade e projeto social? Ele precisa disso? Ele existe? E o que eu preciso? Eu só sei falar português. Já sei. Tenho uma pesquisa e não sei fazê-la melhor do que ninguém. Não consigo deixar colaborações, mas ainda preciso de uma bolsa, materna.
tc

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Arquivos Teatro Oficina

Zé Celso

Maria Alice Vergueiro

Pequenos Burgueses



Rei da Vela







Na semana passada estive no arquivo Edgar Leuenroth, na Unicamp, já que fui informada que lá existem documentos do Teatro Oficina, experiência vital/teatral que considero um marco nas Artes Cênicas brasileiras.








Logo na primeira pasta entregue me deu aquele nó na garganta, pelas histórias desfeitas, tanta gente que vai, a solidão expansiva/criativa do artista, o papel de cada um, agora desbotado nas fotos para a construção de um acervo.








São fotos simples, com gente sentada na mesa, peixes em piscinas naturais do nordeste, crianças brincando, nada que eu ou você não faríamos. Justamente aí, ao abrir a segunda pasta, com Salvador como cenário, me veio uma felicidade sem igual pelo teatro ser encarado como vida. Os intérpretes, mesmo sem a cena, estavam inseridos nas loucuras cotidianas, felizes pro conviver com as pessoas e espaços ao redor, gente brasileira, simples, antropofagia descendente, mas o lugar onde vivemos



Uma porção de elementos desordenados passavam pela minha cabeça, como ritual, gestos enérgicos, expressividade, expressão, intensidade, coragem corpotal, cena, "pelo curta cultural -, contra a especulação comercial", varais, Lula, Nixon, Disney, procissões, sertões, SP colorida, verborragia, prisão, , nudismo, publicidade, comunicação, arte.



Me lembrei que Zé Celso estava apreensivo quanto ao destino deste acervo, espécie de materialidade de sua memória. Mas de certa forma isso "é" sempre, parece não combinar com o "será". Este é o vazio do artista quando a hora passa. Seu espaço é poesia e amanhã, fotografia.



Evoé!


tc


terça-feira, 19 de maio de 2009

Onde estão as minhas/tuas asas

O silêncio.
O vazio.
A vida plena.
Isto vale a pena?


O coração que bate.
O corpo que treme.
O tempo que passa.


Ser um e ser dois.
Ao mesmo tempo.
Ser vários.
Ser ninguém.
Não importa onde.


Eu estou aqui.
Eu estarei sempre aqui.
Em silêncio, no vazio.
Com o coração que bate, o corpo que treme.
Não importa onde.
E o tempo passará.

Surpresa - Guilda eu voltei

Graças ao Hermes

Gostaria de falar do Cruéis Tentadores a partir de seu desejo de conexão, em primeiro lugar porque ele se configura como um coletivo artístico, sempre buscando interagir com diversas linguagens. Depois, posso falar de seu propósito final explícito que é de sempre mostrar a obra inacabada, imperfeita diante do público e dos próprios artistas, mantendo o proceso contínuo como parte primordial da arte que se pretende viva e dinâmica.
Entendemos que, culturalmente, vivemos um período de fragmentação e experimentação muito fortes. O indivíduo, ao mesmo tempo que quer definir sua identidade também necessita da tensão com o outro, desta provocação, mesmo cruel, como meio de participação mais integral do contexto obra, do sistema produtivo e subjetivo que ela carrega.

Há uma forte negação a isto inicialmente, porém, com uma qualidade de abordagem onde o outro é convidado, ou melhor, convocado a redefinir o caos junto ao produto artístico, percebemos pela prática que o público é sedento e não sedentário.

Partindo da premissa de que tudo é fenômeno, acontecimento, que depende da percepção para definir se vai ou não vai, do ponto de vista de cada um que escolheu este "espaço arranjado para o olhar"- pois é mais ou menos isso que diz a etimologia - temos que nos abrir ao impalpável, às avaliações variáveis, por isso também a idéia de que cada um no coletivo é parte também autônoma de uma tendência em definição ou não.

Assim como na dramaturgia, o processo criativo teatral é uma trama, as vezes absurda, quase ficcional enquanto história que tentamos reter dentro do nosso campo confortável de exposição, a história que podemos contar para os outros do que fomos naquele momento efêmero. Mas, como disse, ele acontece, se materializa e já não importa a arrumação, dimensão, o ponto, o nó. Eles estão, mas não são mais fortes que a sensação de desejo, a tentação de fazer a mesma crueldade de novo, senão o próximo insight paralisa, a relação enquanto fenômeno se esgota. A instabilidade nos ajuda a ir em frente, criando nosso território teatral quando o tempo passa.

"Já vimos suas misérias, contradições, e seria possível insistir ainda sobre suas pretensões frequentes a uma "objetividade" interpretativa, a uma "verdade". Mas, múltiplo em seus sentidos, o objeto artístico mantém uma relação tão complexa com a cultura que se mostra inesgotável e inapreensível. Quer queiram, que não, os textos são sempre "incidentais": iluminam certos aspectos, chamam a atenção para outros, constroem relações ligando obras entre si, ou à história, à sociologia, à psicologia, à filosofia; mais tais análises são sempre parciais, porque a obra acaba sempre escapando ao desvendamento total" Jorge Coli - O que é Arte

Continuemos muchachos!!!!!!!!

tc

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Depoimentos


Olá pessoal!!!


Vamos continuar nossa produção, agora registrando coisitas de nossos processos!!!




Esses são os depoimentos de dois mebros do nosso Coletico, para que vcs entendam mais nosso trabalho



DEPOIMENTO LUIS

A partir da experiência conjunta, dialogando c os diversos profissionais q compuseram/compõem o Coletivo, tive a exata noção do q não quero fazer em teatro. Do que n quero me submeter, do q n quero fazer parte, do q n concordo, do q n compactuo, do q n acredito q seja arte. A liberdade proposta criou uma espécie de "vício" e n sei trabalhar de outra forma ( nem quero aprender!!!!)A visão sobre o mundo, sobre arte , sobre contemporaneidade...é muito estimulante e muito inspiradora. A forma caótica, relaxada, cínica e despojada do diretor de conduzir todo o processo e congregar todos em função de um objetivo final (q nem precisa estar pronto , finalizado) é ao mesmo tempo fantástica e aterrorizante, pois nunca realmente sabemos onde/como vamos chegar. O q fazer?Se entregar de corpo, alma, sexo, coração e muito despreendimento....só assim se pode ser um cruel de verdade!!!!



DEPOIMENTO MARCELO


A performance e a inquietação são aceitas mais nas artes visuais e plásticas que no teatro, principalmente como investigação. Por isso em 2004 resolvi colocar pessoas dentro do coletivo Cruéis Tentadores, que abriga diversas áreas, para enfrentar problemas de atravessamento de nossos próprios trabalhos e aumentar a chance de viabilização dos nossos projetos Dividir autorias e poder participar tbém de outros eventos culturais.


A performance me deu um espaço não como sala, mas como a idéia direcionada em que o processo começa a partir dele. A gente nunca parte de uma sala de espetáculos, esquecemos isso e vamos para processo de localização de personagens e de criaturas, perfis deslocados para o intérprete. Não é ator nem dançarino, mas intérprete.


Inicialmente, trabalho muito com o esvaziamento das informações, das sensações, do vocabulário, dos gestos dos interpretes diante do espaço. Ele começa absorvendo e reconstruindo a história do lugar onde ele está, e se transformando com isso. O que me interessa é como é que o interprete vivencia e reconstrói sua própria história. Mesmo o cenário mais experimental e mais anárquico que seja tem sua força, o interprete tem que se encaixar. Nada é impecável no teatro.


Esse deslocamento do corpo e do espaço cria organicidade, cria adaptações, mesmo que pareça frio e distante. O que eu posso criar de novo sem perder a identidade daquilo que já criei mais tarde também, aproveitar o que já tenho diante do novo.


O mercado muitas vezes não nos possibilita este tipo de pesquisa. Mesmo que o publico tenha receio, a mídia não noticie, que falem que não somos teatro, podemos correr este risco como artistas. O que é que eu vou ganhar no final? Esse é o diferencial do nosso trabalho, mesmo a longo prazo é este processo que nos mantém vivos dentro do que propomos, que nos traz uma identidade a cada experiência. O interprete tem todo direito inclusive de, num dado momento, não participar porque precisa de um dialogo mais forte com o mercado, mas queremos continuar nesta linha de produção e trabalho. Não é um “não me pague que eu não quero”, mas queremos que as pessoas experimentem outras coisas mesmo que durmam, não gostem, como somos jovens nas nossas carreiras podemos experimentar.


Quando o interprete sai destes processos ele também leva um repertório peculiar, porque o erro não existe no meu trabalho. Tudo é acontecimento no momento em que nos reunimos. O que ouço é que esta liberdade se traduz em segurança. Temos exemplos de substituições do dia pra noite, de viagens depois que fomos roubados, processos violentos de o interprete se virar sem um monte de acessórios e pirar, mas nasce uma nova metáfora de adaptação e de sobrevivência que nos faz ver o quanto precisamos nos libertar mais, amadurecer. Todos também têm seu momento de respiração. Atores, não atores, dançarinos, coreógrafos, arquitetos, todos juntos num mesmo processo.


A minha forma de artista cênico está sendo construída com problemas, privações, mas com felicidade e sem medo da exposição, as vezes sem ensaio o dia inteiro, mas uma inquietação mais performática e viva.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Carnaval


CARNAVAL


é carnaval?

É terça-feira?

Quarta-feira mais perto das cinzas?

Fênix amanhecida?

Doce menino que vibra?

Velha guarda que chora?

Mas e aí?


Daí...

...o exagero da aurora...

...a penetração da alma guerreira...

...a palma a subir, o povo a cantar.


Aplaude esta festa?

Acorda esta festa?

é raça esta festa?


Como uma tela que descortina.

História de luz.

Cachaça ressaca da alegria.

Senhora das cores, verdade


Mais uma vez?

Um novo passo?

Caminhar nas avenidas?

Idas e mais idas

Sem nenhuma lucidez inoportuna.




Tati Carcanholo
fev2005